Capítulo 2 – A personificação do mal


…ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante. Então, lhe disse o Senhor: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo. (Gênesis 4:5a7)

O episódio citado se refere ao relato que narra a entrega de ofertas ao Altíssimo por Caim e Abel. Trata-se de um mito hebreu que apresenta em uma linguagem simples e metafórica, leis espirituais. Antes de discorrermos sobre o assunto de nosso tema, é preciso desmistificar uma questão. Não é verdade essa resposta simplista para o ocorrido que diz que o Altíssimo aceitou a oferta de um e se aborreceu da do outro. Segundo a Escritura, o próprio relato deixa claro que a “oferta” não aceita pelo Altíssimo, era a “motivação” de Caim e o que ele carregava no coração. O Altíssimo realmente necessita de ofertas humanas? Claro que não! A Escritura deixa claro que Ele não se agradou primeiramente “de Caim” (seu Ser), e como consequência: “de sua oferta”. A Escritura não diz (I Samuel 16:7) que “Deus não vê como o homem, mas enxerga o coração” (intenção, motivação, inclinação)? Os frutos (as obras) são extensão da árvore! Se Caim tivesse dominado suas inclinações naturais, se ele tivesse perscrutado seu coração e sua motivação, escolhendo “proceder bem” (o nome disso é arrependimento) como o Altíssimo assim disse, não seria aceito? O problema nunca foi a oferta dos dois! Caim escolheu “proceder mal”, se inclinou perante a ira tornando-se escravo desse pecado. Tornou-se semelhante àquilo que escolheu por livre e espontânea vontade servir. E o resultado disso nós sabemos: assassinou ao seu irmão. Há um mistério nesse relato: a personificação do pecado! O pecado aqui é visto como uma fera a espreita, um animal rondando a porta (subentendesse o coração de Caim), ou como um leão ao derredor disposto a tragar (I Pedro 5:8). O pecado nas Escrituras se personifica, toma forma e deixa de ser uma simples palavra ou atitude para se tornar uma figura sombria conhecida por muitos nomes, um deles, o diabo.

O diabo seria a personificação do mal, a manifestação das sombras humanas que se projetam e tomam forma, o espírito que se encarna de tempos em tempos em figuras humanas enigmáticas e terríveis. Na literatura Católica há uma crença de que existem sete pecados capitais. São eles: A gula, a avareza, a luxúria, a ira, a inveja, a preguiça e o orgulho. Em 1589, Peter Binsfeld, um teólogo, demonologista e Padre Jesuíta medieval, personificou os sete pecados capitais. A gula se personificaria em Bélzebu, a avareza em Mammom, a luxúria em Asmodeus, a ira em Satanás que é o diabo, a inveja em Leviathan, a preguiça em Bélphegor e o orgulho em Lucifér. No Satanismo “moderno” de Anton LaVey (já falecido), criador da primeira Igreja de Satanás (Church of Satan) institucionalizada nos Estados Unidos e no mundo, esse princípio é também usado. Apesar de não crerem em um diabo personificado, uma figura que existe de fato, os “satanistas” da Igreja de Satanás acreditam que o diabo seria uma sombra dos desejos humanos mais animalescos e segundo eles, necessários para sobrevivência do homem na Terra. Esses desejos são buscados por esses “satanistas”. São alguns deles: o individualismo, a lascívia, a ira, o ódio, o poder, a arrogância, a vaidade, etc. Há nas Escrituras a personificação, especificamente no Livro dos Provérbios, de palavras, como no caso da loucura. “A loucura é mulher apaixonada, é ignorante e não sabe coisa alguma” (Provérbios 9:13). Outras passagens no livro de Provérbios relatam sobre a adúltera, a lascívia, a maldade e a preguiça. Mas a personificação mais interessante desse livro diz respeito à sabedoria, que se torna um ente capaz de dizer palavras e dar conselhos (Provérbios 8:12).

A sabedoria edificou a sua casa, lavrou as suas sete colunas. Carneou os seus animais, misturou o seu vinho e arrumou a sua mesa. Já deu ordens às suas criadas e, assim, convida desde as alturas da cidade: Quem é simples, volte-se para aqui. Aos faltos de senso diz: Vinde, comei do meu pão e bebei do vinho que misturei. Deixai os insensatos e vivei; andai pelo caminho do entendimento. (Provérbios 9:1a6)

O convite do ente sabedoria, essa personificação e encarnação de uma palavra humana, é que aquele que deseja tornar-se um sábio, que fuja da insensatez que ela condena. A cada inclinação e aproximação humana para a sabedoria, em cada estada do ser em sua presença, a tendência é beber de sua fonte e se tornar semelhante àquilo que se conhece. Essa lei espiritual é uma verdade também quando o ser humano se inclina unicamente para a satisfação do seu desejo, para realização do seu próprio ego, como bem relatou o Apóstolo Paulo (Gálatas 5:19a24). “O seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gênesis 4:7) foi o que o Altíssimo disse a Caim. Aquilo que desejamos com toda intensidade se volta contra nós, pois faz parte da lei espiritual de se tornar semelhante àquilo que se busca.

Conhecer significa “ter relação com”, no mesmo sentido em que a Escritura relata que “Adão conheceu Eva” (Gênesis 4:1), querendo dizer que Adão se relacionou fisicamente e sexualmente com sua auxiliar, e no sexo tornaram-se um só corpo. Esse é o sentido da palavra conhecimento: relacionar-se e se tornar “um” com o objeto que se conhece. Nesse mesmo sentido, o Apóstolo João (um dos que andaram com Jesus) afirma: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor (I João 4:7e8). O amor é personificado pelo Apóstolo e toma a forma de Deus! Nesse sentido, é simples entender que o ser que é nascido de Deus é identificado pelo serviço ao amor. Aquele que ama serve ao Amor e tudo o que o Amor representa.

O diabo é a personificação da maldade, da ira, do medo, do terror e de tudo o que divide a alma humana. A palavra diabo, que tem o significado de “aquele que divide”, foi usada também por Jesus em relação a Judas, aquele que o traiu (João 6:70). Os piores medos humanos e seus temores mais tenebrosos também são personificados nas Escrituras: a morte e o inferno (Oséias 13:14). A morte e o inferno nas Escrituras são entes com um papel futurístico. Vejamos:

Quando o cordeiro abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente dizendo: Vem! E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, sendo este chamado Morte; e o Inferno o estava seguindo, e foi-lhes dada autoridade sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio das feras da terra. (Apocalipse 6:7e8)

Antes de ser um lugar, segundo as Escrituras, a morte e o inferno são entes (Entidades), personificações que futuristicamente serão lançados no lago de fogo e enxofre (Apocalipse 20:14). Esses inimigos do Cristo Eterno foram vencidos por ele, que além de humilhá-los e os expor publicamente ao escárnio (Colossenses 2:15), tomou-lhes a chave de seus reinos (Apocalipse 1:18). A História se repetirá e o Cristo Eterno (eterno porque era, é e continua sendo) os vencerá novamente, mostrando que a Vida supera a morte em todos os aspectos, de tempos em tempos e de ciclos em ciclos.

E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder. Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. (I Coríntios 15:24a26)

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