Meu espírito indígena


“Viva aceso, olhando e conhecendo o mundo que o rodeia, aprendendo como um índio(…) seja uma índio na sabedoria.” (Darcy Ribeiro)

Chegamos ao ponto em que precisamos voltar e rever o caminho percorrido pela humanidade. Começamos engatinhando e agora já estamos voando… em um futuro muito próximo já estaremos nos teletransportando. Será? O problema é que a rapidez não nos permite apreciar o caminho, refletir, questionar e viver de maneira intensa. É nesses dias de pressa, correria, ansiosidade sufocante e nulidade latejante, que o espírito grita asfixiado pela tecnologia. Meu espírito indígena me faz lembrar sempre de nossa ancestralidade cultural, onde os nossos antepassados eram parte da natureza e não “donos” dela. Para cada ser humano existe em média 6 bilhões de insetos. Se alguém tivesse que ser “dono” dessa Terra seria então os insetos e não os humanos. Vivíamos até bem pouco tempo sem a preocupação de ter o que comer ou o que vestir, na certeza de que cada caça, seria provida pela natureza. A geladeira nos tirou essa certeza e nos trouxe a dúvida quanto ao amanhã! Meu espírito indígena sempre me faz sentir saudade de algo que nunca presenciei, mas sinto culturalmente, que é a experiência de viver nas tribos no meio das matas fechadas para o “mal” e abertas para a vida simples. Viver de maneira tribal, onde todos se consideravam irmãos, onde os velhos contavam histórias e eram ouvidos, onde as crianças podiam correr e desfrutar sem perigo de nada, onde o olhar era bom e não via maldade nas coisas, onde a riqueza era a cultura e não os bens materiais… é esse tipo de vida que meu espírito indígena senti falta.

Houve um tempo em que nossos ancestrais se auto-denominavam. Eles mesmos sabiam quem eram e todas as suas identificações como tribo possuíam significado e razão de ser. Depois veio uma tribo de longe, de um outro continente chamado Europa, tribo essa diferente e se jactando de ser melhor, mais nobre e evoluída. Tribo essa chamada por eles próprios de “civilizada”, que também faz parte de nossa herança sanguínea. Essa tribo mais “civilizada” nomeou e tachou as tribos que cá viviam. “Índios”, “aborígenes”, “selvagens”, “vermelhos” e modernamente chamados de “nativos”, nossos ancestrais sofreram a violência que a tecnologia traz quando ela não é vista como “meio” e sim como “fim”. O fim de uma “era”! A “era” das histórias contadas pelos mais velhos das tribos é substituída pela “sabedoria facebookiana” das frases curtidas e compartilhadas. A “era” da caça e das festanças tribais que davam a chance do convívio social é substituída pelo isolamento “internetiano” e pela frieza social estimulada pela propaganda. A “era” do trabalho de subsistência, onde aquilo que se produzia se desfrutava, agora é substituída pela “era” da alienação no trabalho, onde produzimos aquilo em que talvez nunca desfrutaremos. A “era” em que o trabalho não era o que o seu nome define como sendo: “tripalium” (instrumento de tortura romano) e sim um momento de prazer sem hora de iniciar e sem hora de acabar, conforme as necessidades surgiam. Foi-se a “era” em que descansar na rede, conversar, nadar em rios límpidos, ouvir o canto da floresta, era o maior dos prazeres. Agora de tantas opções de lazeres e prazeres que temos, não conseguimos fazer nada. Não conseguimos ler um livro mais, ler jornais, ouvir um CD inteiro preferido, assistir um canal a cabo sem trocar de 5 em 5 minutos, ir ao teatro etc. Alguma coisa deu errado! É extremamente angustiante essa vida agitada, sem paz de espírito, apavorada em relação ao futuro, tecnologicamente hostil, onde o Facebook virou a nossa diversão diária. Éramos mais inteligentes sem sombras de dúvidas! Meu espírito indígena sempre me leva a refletir muito sobre isso! Será que nasci no tempo errado?

Anderson Luiz

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Um comentário sobre “Meu espírito indígena

  1. As pessoas têm se afastado cada vez mais e confiado menos umas nas outras. A humanidade tem perdido seu conceito e a gente não sabe mais como será o futuro. Vai faltar água e ar puro pare respirar. As crianças terão o controle sobre os pais. O desrespeito já reina, a paz já não é a mesma. Busquemos ela dentro de nós para seguirmos firmes nesta terra que há tempos não é mais a mesma.

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